
A publicação da primeira-dama Janja Lula da Silva, exibindo o preparo de carne de paca no almoço de Páscoa, poderia ter passado como mais um registro doméstico. Não passou. O conteúdo ganhou repercussão nacional após ser destacado por vários veículos de comunicação, mas o incômodo não se limitou à curiosidade gastronômica. A desenvoltura no preparo e a referência a técnicas típicas de carnes de caça foram interpretadas como sinal de familiaridade com um tipo de consumo que, embora possa ser legal em condições específicas, carrega forte peso simbólico, especialmente quando parte de quem ocupa posição de destaque na agenda ambiental.
A tentativa de conter a repercussão veio em forma de justificativa: a carne, segundo a própria primeira-dama, teria origem legalizada. Ainda assim, o debate já havia ultrapassado o campo da legalidade. O que estava em jogo era o contraste. Em um país onde o preço do feijão e do café pressiona o orçamento das famílias, a exibição de um alimento associado a nichos restritos foi percebida por muitos como desconectada da realidade. A crítica não se construiu apenas sobre o prato, mas sobre o que ele representa: distância.
Esse sentimento se intensificou quando, quase simultaneamente, imagens vindas do interior do Maranhão revelaram outra face da mesma data. No município de Governador Nunes Freire, a distribuição de peixes durante a Semana Santa gerou revolta após registros mostrarem o alimento sendo transportado e entregue em caçamba de caminhão de lixo, sem qualquer condição sanitária adequada. Moradores receberam o pescado em meio à sujeira, situação que levantou questionamentos sobre dignidade e risco à saúde .
O contraste é inevitável. De um lado, a exibição de um alimento sofisticado, envolto em discurso de legalidade e normalidade. De outro, brasileiros recebendo comida em condições que beiram a humilhação. Entre a paca temperada com ervas e o peixe descartado em caçamba, há mais do que diferença de cardápio. Há um retrato duro de um país onde o debate público muitas vezes ignora o essencial: coerência, sensibilidade e respeito.
Matéria formulada sob a supervisão de Wesley Rodrigues da Silva DRT: 0002089/ms
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