Provisões bilionárias, endividamento recorde e juros de 15% acendem alerta no sistema financeiro e indicam um cenário de crédito cada vez mais arriscado
Os maiores bancos do Brasil estão aumentando as reservas para enfrentar uma possível deterioração ainda maior da inadimplência. Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil destinaram juntos R$ 44,8 bilhões a provisões para perdas de crédito apenas no primeiro trimestre de 2026, uma alta de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior. O movimento mostra que as próprias instituições estão se preparando para um cenário mais difícil.
O alerta ganha força diante dos números do Banco Central. A inadimplência no crédito ao consumidor chegou a 5,6% em maio e permaneceu nesse patamar em junho, superando os níveis registrados durante a recessão de 2015 e 2016 e também os observados na pandemia. Analistas ouvidos pela reportagem avaliam que a situação pode continuar se deteriorando até o fim do ano e avançar para 2027.
O endividamento das famílias também atingiu um nível preocupante. Em fevereiro, 49,9% das famílias estavam endividadas, percentual que igualou o recorde da série histórica iniciada em 2005. Ao mesmo tempo, a taxa Selic permanece em 15% ao ano, encarecendo financiamentos e empréstimos e aumentando a pressão sobre consumidores e empresas que já enfrentam dificuldades para honrar compromissos.
Os sinais de estresse aparecem de maneira diferente entre os grandes bancos. O Santander registrou R$ 7,65 bilhões em provisões no segundo trimestre, alta de 11,5% em 12 meses. No Banco do Brasil, as perdas deixaram de estar concentradas apenas no agronegócio e passaram a atingir também pessoas físicas e pequenas e médias empresas. O Itaú apresenta situação relativamente mais confortável, com o menor índice de inadimplência entre os principais concorrentes.
A reação dos bancos é especialmente relevante porque provisões maiores significam que as instituições estão elevando sua proteção contra possíveis calotes. O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que o ciclo de crédito será desafiador e indicou que o banco prefere crescer menos a assumir riscos excessivos. Na prática, a tendência pode resultar em crédito mais seletivo e caro justamente quando famílias e empresas mais precisam de financiamento.
O cenário também coloca os bancos digitais sob maior pressão. Nubank e Inter possuem forte exposição ao crédito pessoal sem garantia e a consumidores de menor renda, justamente uma parcela mais vulnerável quando a renda fica apertada e os juros permanecem elevados. Com inadimplência em alta, famílias endividadas e instituições reforçando seus colchões financeiros, o sistema bancário entra em uma fase de cautela que pode ter consequências sobre o consumo, os investimentos e a atividade econômica nos próximos meses.




