Documentos médicos apontam burnout, depressão e transtorno de estresse pós-traumático; trabalhadora relata pensamentos suicidas e episódio em que atentou contra a própria vida
Uma funcionária da Santa Casa de Campo Grande está afastada pelo INSS e em tratamento especializado após o agravamento de um quadro de saúde mental que, segundo documentos médicos apresentados à reportagem, inclui síndrome de burnout, episódio depressivo e transtorno de estresse pós-traumático. Os registros também apontam ansiedade intensa, insônia, exaustão, crises de pânico e prejuízos de concentração e memória. O quadro chegou a incluir pensamentos suicidas e, conforme o relato da trabalhadora e os documentos apresentados, um episódio em que ela atentou contra a própria vida. O afastamento das atividades profissionais foi recomendado por 180 dias, a partir de agosto de 2026.
A funcionária afirma que o adoecimento está relacionado a situações vivenciadas no ambiente de trabalho. Segundo seu relato, ela teria sido submetida a humilhações, gritos, cobranças excessivas e ameaças de medidas disciplinares. Ainda de acordo com a trabalhadora, foram feitas tentativas de buscar apoio psicológico enquanto permanecia em atividade, mas o quadro se agravou progressivamente até comprometer sua rotina e sua capacidade de trabalhar. O caso foi levado à Justiça do Trabalho, onde ela busca a rescisão indireta do contrato. A relação entre as condições de trabalho e o adoecimento será analisada no processo, mas a gravidade dos sintomas registrados nos documentos médicos já demonstra a dimensão do sofrimento relatado pela funcionária.
A reportagem apurou ainda que, nesta sexta-feira (18), uma equipe ligada à fiscalização trabalhista esteve na Santa Casa para uma visita técnica. Segundo informações internas obtidas pelo Quadro Geral, os fiscais teriam tido contato limitado com os trabalhadores, enquanto gestores da instituição foram ouvidos durante a passagem da equipe. A informação ainda não foi oficialmente confirmada pelo Ministério Público do Trabalho. Caso seja confirmada, a forma como a visita foi conduzida deverá ser considerada na avaliação das informações obtidas sobre as condições de trabalho na unidade.
O caso ocorre em meio a um histórico de apurações sobre relações trabalhistas na Santa Casa. Em 2023, o Ministério Público do Trabalho informou que a Justiça do Trabalho determinou medidas contra práticas de assédio moral na instituição após investigação que apontou relatos de humilhações, xingamentos, constrangimentos públicos e violência psíquica. A decisão também estabeleceu medidas preventivas e mecanismos para recebimento de denúncias.
Mais recentemente, o MPT abriu nova investigação após denúncias envolvendo gritos, ameaças, intimidações e agressões verbais contra profissionais de enfermagem do Centro Cirúrgico. Reportagens publicadas nesta semana apontaram que o procedimento reúne relatos de diversos trabalhadores e que a Santa Casa recusou uma proposta de acordo apresentada pelo Ministério Público do Trabalho, citando dificuldades financeiras.
A funcionária que procurou o Quadro Geral pediu anonimato para preservar sua identidade. Em meio ao tratamento, ela também relata dificuldades financeiras decorrentes do afastamento e afirma que decidiu tornar seu caso público para chamar atenção para situações que, segundo ela, podem contribuir para o adoecimento de trabalhadores. A reportagem procurou a Assessoria de Comunicação da Santa Casa de Campo Grande para obter esclarecimentos sobre a visita técnica e sobre a suposta limitação de contato entre fiscais e funcionários. Até o momento da publicação, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação da instituição.




