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Da urna ao algoritmo: quem está pensando pelo eleitor?

imagem gerada por IA

A propaganda política entrou na era digital, mas a velha estratégia de transformar cidadãos em massa de manobra ganhou uma ferramenta muito mais poderosa

Durante décadas, televisão e rádio concentraram boa parte da propaganda eleitoral. Hoje, a disputa acontece também no celular, onde uma fala de debate pode ser recortada, editada e distribuída em segundos por Instagram, TikTok e WhatsApp. O eleitor ganhou uma ferramenta extraordinária de liberdade: pode pesquisar, confrontar dados, recuperar declarações e consultar fontes diferentes. Mas essa mesma tecnologia também criou um ambiente perfeito para a manipulação. A repetição de uma narrativa não a transforma em verdade, assim como um vídeo viral não transforma opinião em fato. O cidadão não pode ser reduzido a um número de audiência, a um clique ou a mais uma pessoa conduzida pelo algoritmo.

O problema se agrava quando a política passa a explorar emoções em vez de argumentos. Medo, indignação, culpa, ressentimento e a criação permanente de antagonistas são recursos poderosos para conduzir multidões. Conceitos como liberdade, democracia, justiça e direitos podem ser utilizados como embalagens para propostas completamente diferentes, enquanto quem questiona determinada narrativa é rapidamente rotulado. É assim que cidadãos deixam de ser tratados como indivíduos capazes de pensar e passam a ser tratados como massa de manobra, organizada em grupos, dividida entre “nós” e “eles” e estimulada a reagir antes mesmo de compreender.

E a sofisticação dessa estratégia nem sempre aparece. Um vídeo aparentemente improvisado, gravado na sala de casa, pode envolver roteiro, edição, estudo de comportamento, escolha de palavras, enquadramento e técnicas de persuasão. A aparência de espontaneidade pode ser cuidadosamente fabricada. O algoritmo, por sua vez, reforça aquilo com que o usuário já concorda, criando bolhas nas quais a repetição substitui o debate. O resultado é perigoso: até pessoas instruídas podem ficar presas em narrativas cuidadosamente construídas, enquanto aqueles com menor acesso a fontes diversificadas podem ser ainda mais vulneráveis à informação manipulada.

É justamente por isso que uma visão verdadeiramente conservadora deveria defender algo muito simples e, ao mesmo tempo, cada vez mais raro: o cidadão não pertence a político algum, a partido algum, a influenciador algum e muito menos a um algoritmo. O eleitor precisa recuperar o direito de desconfiar, pesquisar e discordar, inclusive daquilo que confirma suas próprias convicções. Antes de compartilhar, perguntar pela fonte. Antes de acreditar, procurar o contexto. Antes de seguir a multidão, pensar. A tecnologia pode ser uma ferramenta extraordinária de liberdade, mas também pode ser utilizada para conduzir multidões. Uma sociedade livre não é aquela em que todos pensam igual. É aquela em que ninguém aceita entregar a própria consciência para que outros pensem em seu lugar.

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