QUADRO GERAL

Augusto Cury, o novo dono da bola

CompartilharfXWA

Ele queria ser a novidade da política brasileira. No primeiro grande teste, preferiu recolher os brinquedos e ir embora.

Durante a campanha, havia uma espécie de orgulho intelectual em torno de Augusto Cury. Afinal, não era simplesmente mais um candidato. Era o escritor, o psiquiatra, o homem que estudava a mente humana, o especialista em comportamento, o sujeito que prometia apresentar ao eleitorado uma alternativa diferente da velha polarização. Não era Lula. Não era PT. Não era isso, não era aquilo. Era uma nova proposta, uma nova mentalidade, uma nova maneira de fazer política. Pelo menos era o que diziam seus admiradores, alguns deles com aquela expressão de quem descobriu a Atlântida e estava prestes a ensinar o resto do Brasil a pensar.

Havia, inclusive, uma certa superioridade intelectual no ar. Os eleitores de Cury pareciam pertencer a uma espécie de aristocracia da consciência política. Enquanto os outros brigavam, eles pensavam. Enquanto os outros discutiam, eles compreendiam. Enquanto os outros escolhiam entre A e B, eles, iluminados pelo conhecimento e pela inteligência emocional, tinham encontrado C. O problema é que, quando chegou a hora de transformar essa tão sofisticada inteligência em responsabilidade política, o dono da novidade resolveu fazer o movimento mais infantil possível: pegou a bola e foi embora.

Cury anunciou que está deixando a política por enquanto. O futuro, segundo ele, ninguém sabe. Até aí, tudo bem. A política é feita de escolhas, desistências e recomeços. O curioso é que, ao mesmo tempo, ele também deixou claro que não autoriza ninguém a usar seu nome para apoiar qualquer candidatura. Traduzindo para a linguagem do recreio: “A bola é minha, ninguém joga com ela”. E lá vão os eleitores, aqueles que acreditaram na grande novidade, descobrir sozinhos o que fazer com o voto no segundo turno. É uma saída curiosa para alguém que se apresentou como alternativa e pretendia ocupar espaço justamente por oferecer uma postura diferente. No fim, diante da responsabilidade de se posicionar, a grande ruptura com o velho jeito de fazer política foi… não querer se comprometer.

E aqui mora a parte mais engraçada. O homem que passou a vida falando sobre comportamento humano parece ter descoberto uma nova técnica terapêutica: quando a brincadeira não sai como planejado, recolha seus brinquedos e deixe os adultos resolverem. Não é necessário apoiar ninguém, não é necessário orientar eleitor, não é necessário assumir consequência. Basta pegar a viola, colocar na sacola e dizer: “Tchau, pessoal. O futuro a Deus pertence”. Só faltou levar o parquinho junto.

Talvez seja justamente essa a grande lição involuntariamente oferecida por Augusto Cury nesta eleição: inteligência não é sinônimo de maturidade política. Ter livros publicados, diplomas, conhecimento sobre comportamento humano e uma legião de admiradores convencidos de que descobriram o candidato mais esclarecido do país não garante que, diante de uma encruzilhada, alguém saiba se comportar como adulto.

E não há nada de errado em não apoiar nenhum dos candidatos. Isso é uma escolha legítima. O problema é vender a imagem de novidade, apresentar-se como alguém capaz de oferecer uma política diferente e, quando chega o momento em que essa diferença precisa ser demonstrada, simplesmente abandonar o campo e declarar que ninguém pode sequer encostar na sua bola.

Talvez Cury volte. Afinal, ele próprio deixou o futuro em aberto. E, quando a poeira baixar, quem sabe apareça novamente com uma nova tese, uma nova proposta e aquele velho discurso de que o Brasil precisa de uma alternativa. Só espero que, até lá, alguém tenha explicado uma coisa básica ao novo dono da bola: quem entra para disputar o jogo não pode reclamar quando chega a hora de jogar.