Herança maldita: dívida bilionária e déficit desafiam o próximo governo
Endividamento público em alta, juros elevados, despesas obrigatórias e novas medidas com impacto fiscal compõem o cenário que a próxima gestão terá de enfrentar para recuperar o equilíbrio das contas públicas.
O próximo governo brasileiro deverá assumir com um desafio econômico de grandes proporções: conter o avanço da dívida pública e equilibrar as contas federais sem comprometer os serviços essenciais nem sufocar a atividade produtiva com novos impostos. No terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o crescimento do endividamento e a persistência dos déficits fiscais ampliaram as preocupações sobre a sustentabilidade das contas públicas.
Em agosto de 2026, a dívida bruta do setor público chegou a R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Banco Central. A dívida estava em 71,68% do PIB em dezembro de 2022. No mesmo mês, os juros nominais acumulados em 12 meses alcançaram R$ 1,182 trilhão, enquanto o déficit nominal, que inclui os juros da dívida, chegou a R$ 1,264 trilhão. Os números dimensionam o custo de financiar um Estado altamente endividado.
O resultado primário também preocupa. Entre janeiro e agosto de 2026, o Governo Central registrou déficit de R$ 94,9 bilhões, segundo o Tesouro Nacional. No período, as receitas líquidas cresceram 5,7% em termos reais, mas as despesas avançaram na mesma proporção, com aumento de R$ 96,3 bilhões. O cenário evidencia a dificuldade de fazer a arrecadação acompanhar as necessidades de gasto e reforça o debate sobre a eficiência da administração dos recursos públicos.
Outro ponto de atenção é o peso dos gastos obrigatórios, especialmente Previdência, pessoal e benefícios sociais, que restringem a margem para investimentos e novas prioridades. A dívida elevada também mantém o governo dependente da emissão de títulos para financiar suas necessidades e refinanciar compromissos anteriores. Embora parte desse quadro tenha origem em decisões de governos passados e em fatores estruturais, a trajetória recente exige uma resposta fiscal consistente da atual administração e de seu sucessor.
As projeções de mercado para 2027 reforçam o tamanho do desafio. O Prisma Fiscal de setembro, divulgado pelo Ministério da Fazenda, estimou déficit primário de R$ 45,35 bilhões para o Governo Central e dívida bruta equivalente a 87% do PIB. São previsões, não resultados definitivos, mas indicam que o equilíbrio das contas ainda está distante.
A preocupação aumenta diante de anúncios de benefícios, subsídios e programas com impacto potencial sobre o orçamento em ano eleitoral. O chamado gastômetro, que reúne iniciativas de diferentes naturezas, chegou a R$ 354 bilhões em 14 de outubro. Esse montante, porém, não corresponde a um rombo já realizado: inclui financiamentos, renúncias de receita e medidas ainda não implementadas. A análise responsável exige distinguir o custo efetivo de cada programa de seu impacto estimado.
Sob uma perspectiva conservadora, o principal questionamento é se a expansão de despesas e benefícios está acompanhada de fontes permanentes de financiamento e de resultados capazes de justificar seu custo. Quando o Estado gasta continuamente mais do que arrecada, a conta pode aparecer na forma de maior endividamento, juros elevados, pressão tributária e menor espaço para investimentos. A próxima gestão terá de enfrentar esse desequilíbrio com controle de despesas, avaliação de benefícios fiscais, transparência e regras confiáveis para as contas públicas.
A herança econômica, portanto, não se resume a um único número. Ela reúne dívida acumulada, custo dos juros, déficits recorrentes e compromissos que limitam as escolhas do futuro presidente. O tamanho definitivo desse passivo dependerá dos resultados de 2026 e das decisões tomadas até a mudança de governo. O desafio será corrigir a rota sem transferir indefinidamente às próximas gerações o custo de um Estado que precisa gastar melhor, recuperar credibilidade fiscal e criar condições para o crescimento sustentável.


