QUADRO GERAL

“Virtuosas” usa a sátira como escudo para ofender a fé cristã

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Filme transforma a figura bíblica da mulher virtuosa, descrita em Provérbios 31, em elemento de uma narrativa de terror e humor ácido; para cristãos, chamar a abordagem de sátira não elimina o caráter ofensivo da representação.

“Virtuosas” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (24) apresentando-se como uma mistura de terror social, suspense e humor ácido. A produção pretende satirizar o universo ultraconservador, a cultura do coaching religioso e determinadas interpretações sobre o papel da mulher cristã. Até aí, nenhuma religião está acima da crítica e nenhuma obra artística precisa ser protegida de questionamentos. O problema começa quando a palavra “sátira” passa a funcionar como um escudo para justificar qualquer representação ofensiva. Uma obra pode ser satírica e, ainda assim, ser criticada pelo modo como escolhe retratar aquilo que milhões de pessoas consideram sagrado.

O filme utiliza como uma de suas referências centrais a chamada “mulher virtuosa” de Provérbios 31. E aqui existe uma contradição que não deveria passar despercebida. A mulher descrita na Bíblia está muito distante da caricatura de uma mulher sem autonomia, incapaz de tomar decisões ou reduzida à submissão. O texto apresenta uma mulher que trabalha, administra, negocia, compra um campo, produz, organiza os recursos da casa, cuida dos seus e age com sabedoria. É uma mulher de força, iniciativa e responsabilidade, reconhecida por sua família e por sua comunidade.

Provérbios 31 não apresenta a mulher virtuosa como alguém apagada dentro do lar. Ela é justamente uma das figuras que sustentam a estrutura da família. Ela administra os negócios, cuida das necessidades da casa, trabalha com as próprias mãos e toma decisões. Sua força não é apresentada como ameaça, mas como virtude. Sua capacidade de administrar não é motivo de vergonha, mas de reconhecimento. Sua sabedoria não é tratada como submissão intelectual, mas como qualidade. Essa dimensão parece desaparecer quando a expressão “mulher virtuosa” é transportada para uma narrativa na qual a personagem central desse universo é apresentada como uma figura psicopática e perigosa.

É possível criticar o conservadorismo. É possível criticar líderes religiosos. É possível denunciar manipulação espiritual, abuso de autoridade e discursos que coloquem mulheres em situações de opressão. Tudo isso faz parte do debate público e pode ser matéria-prima para o cinema. Mas existe uma diferença entre questionar comportamentos concretos e transformar uma referência bíblica reconhecida por milhões de cristãos em instrumento de uma caricatura, para depois apresentar a palavra “sátira” como justificativa suficiente.

A pergunta que fica é inevitável: por que a fé cristã é tantas vezes tratada como um território especialmente confortável para esse tipo de provocação? Seria igualmente natural construir uma personagem psicopata utilizando símbolos, conceitos e referências de outras tradições religiosas e, diante da reação dos fiéis, simplesmente responder que “é sátira”? A questão não é defender que outras religiões sejam atacadas. É justamente o contrário. Se o respeito à diversidade religiosa é um princípio, ele precisa valer para todos. Cristãos, muçulmanos, judeus, praticantes de religiões de matriz africana e pessoas sem religião devem ter o mesmo direito de questionar quando percebem que suas crenças foram reduzidas a uma caricatura.

Também é importante separar liberdade artística de imunidade à crítica. Ninguém precisa defender censura para considerar uma obra ofensiva. O filme tem o direito de existir, assim como seus realizadores têm o direito de expressar a crítica que desejam. Mas o público também tem o direito de responder. Liberdade artística garante o direito de provocar; não garante que ninguém possa considerar a provocação ofensiva. Chamar algo de sátira explica a linguagem escolhida pelos autores, mas não encerra a discussão sobre o efeito ou sobre a legitimidade da representação.

No fim, talvez a questão mais importante seja justamente esta: quando a sátira deixa de ser uma ferramenta de crítica e passa a ser utilizada como escudo contra qualquer questionamento? O cristão não precisa temer o cinema, nem exigir que a sua fé seja colocada em uma redoma. A própria tradição cristã possui uma longa história de debate, reflexão e confronto de ideias. Mas também não precisa aceitar em silêncio uma representação que considera ofensiva. Se “Virtuosas” quer provocar, que provoque. Se quer criticar, que critique. Mas aqueles que se sentirem atingidos também têm o direito de dizer que não enxergam naquela caricatura a mulher de Provérbios 31 que conhecem.

A arte pode ser irreverente. A sátira pode ser ácida. A crítica religiosa pode existir. Mas nenhuma dessas coisas transforma automaticamente uma ofensa em virtude. E chamar de sátira aquilo que ofende a fé de milhões não deveria ser suficiente para encerrar o debate.